25/11/2014 / Fonte: Do G1, em São Paulo | Taís Laporta
Para atrair quem resiste em fazer um seguro de vida porque não vai ver o dinheiro de volta, as seguradoras criaram uma modalidade que permite que o “sobrevivente” resgate parte do que foi pago – isto é, que o próprio segurado receba um fatia do que pagou, e não deixe apenas para seus beneficiários após seu falecimento. Mas o preço mais elevado e a complexidade do produto ainda impedem sua massificação, dizem os principais grupos que o comercializam. A proteção pode ficar bem mais salgada que um seguro de vida tradicional, já que ela acumula uma reserva que, mais tarde, é devolvida ao segurado que não morrer ou ficar incapacitado. No perfil mais barato (jovem e saudável), o produto sem resgate é encontrado a partir de R$ 30 por mês no mercado. “Sob medida”, o resgatável não sai por menos que R$ 150 no mesmo perfil – ou quatro vezes mais. É impossível cravar valores exatos para o prêmio (custo do seguro), porque ele é calculado por uma série de variáveis de risco. Parte dos aportes custeiam o seguro, e outra porção é capitalizada para a reserva. “É como comprar um carro popular ou um mais sofisticado. Os dois levam ao mesmo lugar, mas a proteção é diferenciada”, compara a diretora de produtos da Prudential, Elizabeth Bartolo. Na seguradora, primeira a vender a modalidade resgatável no Brasil, o produto preferido pela alta renda. O salário dos consumidores que optam pelo produto varia entre R$ 75 mil e R$ 140 mil por ano. QUANTO É POSSÍVEL RESGATAR Simulação de um seguro de 20 anos, com capital segurado de R$ 100 mil e prêmio mensal de R$ 385,61, para cliente que iniciou a apólice aos 40 anos (cálculo pode variar conforme risco envolvido). – Fonte: Mongeral Aegon para o G1. Tempo de resgate Valor resgatado Valor pago Custo efetivo Após 5 anos R$ 19.850,00 R$ 23.136,77 R$ 3.286,77 Após 15 anos R$ 68.990,00 R$ 69.410,31 R$ 420,31 Após 20 anos R$ 100.000,00 R$ 92.547,08 R$ – 7.452,92 O seguro pode cobrir toda a vida ou ser temporário, geralmente entre cinco e 30 anos. Neste caso, quando o contrato termina, a proteção é interrompida e o cliente saca a reserva.
Mas é preciso esperar, no mínimo, dois anos para ter acesso ao recurso, a qualquer momento na vigência do contrato. Sacar o dinheiro significa interromper a proteção. Quanto mais tempo o segurado mantiver a apólice, maior o percentual a resgatar. Se ficar até o fim do contrato, o consumidor pode ter de volta até 100% do capital segurado.
Diferentemente do seguro tradicional, o resgatável não costuma reajustar o prêmio por idade. Assim, o segurado paga a mesma quantia, ou até um valor gradualmente menor, ao longo do contrato.
Na Mongeral Aegon, a idade média dos que compram o produto é de 37 anos. “Quase metade dos clientes têm entre 31 e 50 anos, a maioria homens”, diz Marcus Marinho, gerente de produtos e inteligência de mercados da seguradora.
Jovens em busca de patrimônio Adultos entre 20 e 40 anos que acabam de constituir família são os perfis mais indicados para o produto, explica o sócio da Fortlife Consultoria, especializada em seguros de vida, Marcelo Rea.
“No momento em que o segurado mais precisa formar um patrimônio, ele pode comprar a proteção aliada ao planejamento financeiro”, diz. Este capital de reserva pode servir, por exemplo, para pagar a faculdade do filho após 20 anos de apólice.
Mas apesar de render, o produto não pode ser confundido com um investimento, alertam os especialistas. Isso porque a reserva pode ser crescer bem menos do que se ficasse em uma aplicação comum, devido ao cálculo de risco da seguradora, que influi na formação desse capital. “É como comprar um carro popular ou um mais sofisticado. Os dois levam ao mesmo lugar, mas a proteção é diferenciada.” Elizabeth Bartolo, da Prudential Para ser acumulada, a reserva considera a probabilidade de morte o segurado – cujo nome técnico é risco atuarial –, que calcula fatores como estado de saúde e idade, além da correção prevista em contrato.
A reserva costuma sofrer uma correção monetária, geralmente pela inflação mais juros, dependendo do fundo onde ela for aplicada. Investimentos em renda fixa, por sua vez, costumam acompanhar a taxa Selic, atualmente em 11,25% ao ano.
“O seguro resgatável não pode ser confundido com um plano de previdência, que é um produto puramente de acumulação. O seguro agrega a formação de um patrimônio à proteção”, diz a diretora de produtos da Prudential, Elizabeth Bartolo.
A pedido do G1, a Mapfre fez uma simulação de quanto um homem de 40 anos, não fumante, poderia resgatar se contratasse o Bien Vivir. Se a cobertura for de R$ 1 milhão por morte e durar por 60 anos, ele pagaria R$ 1.284 por mês, incluído o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
Ao fim de 20 anos, ainda vivo, ele teria pago R$ 308,2 mil, com garantia de resgatar R$ 291,5 mil de sua reserva. Com o dinheiro de volta, o custo real do seguro teria sido de R$ 16,6 mil, ou R$ 69,18 por mês – preço mais próximo dos seguros tradicionais.
Os juros podem alterar essa conta. Se o fundo tivesse um rendimento real de 5% ao ano, o resgate poderia chegar a R$ 363,9 mil – 20% mais que o valor pago pelo seguro. Mas quanto antes o cliente resgatar, menor a quantia.
Falta de padrão no mercado Cada seguradora cria suas próprias regras para o seguro resgatável. Para uniformizar o produto, o presidente da Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), Osvaldo Nascimento, enviou um projeto à Susep (Superintendência de Seguros Privados), há cerca de um mês, para padronizar a proteção.
“A ideia é regulamentar o produto para torná-lo mais transparente e não gerar uma expectativa frustrada de retorno”, diz o executivo. Caso a Susep regulamente o seguro, acredita Nascimento, ele pode tornar-se mais conhecido e o cliente terá uma ideia mais clara da formação de seu patrimônio.
As condições variam bastante. Na Prudential, o contrato prevê uma espécie de “empréstimo” da reserva resgatável, em que o cliente recebe o dinheiro e o devolve com um tipo de juros chamado de “assistência financeira”, sem perder a cobertura do seguro. Quando terminar o prazo da apólice, o segurado não paga mais o prêmio, mas continua com a cobertura, a menos que resgate o capital. “O produto não é tão comum porque requer uma administração mais sofisticada e planejamento”, diz a diretora de produtos da seguradora. Na Mapfre, o seguro resgatável capitaliza uma parte do prêmio em um fundo pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), mais uma taxa de 3% ao ano. Se a aplicação render além deste valor, parte do excedente é devolvida ao segurado.
“A partir do segundo ano, 50% desta sobra passa a entrar na reserva, e após 10 anos, o percentual chega a 100%”, afirma Maristela Gorayb, diretora de previdência e vida resgatável da seguradora.
Há três anos no mercado, o produto tem um limite de 70 anos para contratar. Até os 59, o cliente tem vigência da apólice até os 100. O seguro resgatável é pouco conhecido na Mapfre, segundo Maristela.
No mercado há 10 anos, o Vida Prêmio, da Porto Seguro, tem contratos de até 30 anos, desde que o segurado não ultrapasse os 75 anos ao fim do contrato. “É mais vantajoso para pessoas de no máximo 40 anos”, explica a gerente comercial da seguradora, Evely Silveira.